10 junho 2017

FLORBELA ESPANCA A MENDIGA DO AMOR

Uma mulher, rejeitada pelo pai, que não pode ter filhos, tratada de forma excludente por alguns pelo fato de viver sua liberdade de forma boêmia, sente-se em função de "mendiga". Refiro-me a Florbela Espanca ( 1894-1930) poetisa portuguesa que tem como características principais de sua obra o erotismo e a melancolia.




MENDIGA


Na vida nada tenho e nada sou;
 Eu ando a mendigar pelas estradas...
 No silêncio das noites estreladas
Caminho, sem saber para onde vou! 

Tinha o manto do sol... 
quem mo roubou?! 
Quem pisou minhas rosas desfolhadas?! 
Quem foi que sobre as ondas revoltadas 
A minha taça de ouro espedaçou? 

Agora vou andando e mendigando, 
Sem que um olhar dos mundos infinitos
 Veja passar o verme, rastejando...

Ah, quem me dera ser como os chacais
 Uivando os brados, rouquejando os gritos
 Na solidão dos ermos matagais!...


De todos os infortúnios vivenciados por Florbela, o maior deles e o mais sentido, foi a perda a do irmão, em 1927, em um acidente de avião, fato que a levou a tentar  suicídio. A morte de Apeles Espanca, a deixou ainda mais melancólica o que refletiu significativamente em sua obra. Fato que se faz sentir no poema In memoriam.

Florbela Espanca e seu irmão Apeles Espanca (1904)- Foto reprodução


IN MEMORIAM
Ao meu morto querido

Na cidade de Assis, Il Poverello

 Santo, três vezes santo, andou pregando
 Que o sol, a terra, a flor, o rocio brando,
 Da pobreza o tristíssimo flagelo,

Tudo quanto há de vil, quanto há de belo,
 Tudo era nosso irmão! 
- E assim sonhando,
 Pelas estradas da Umbria foi forjando
 Da cadeia do amor o maior elo!

"Olha o nosso irmão Sol, nossa irmã Água...
" Ah! Poverello! Em mim, essa lição
 Perdeu-se como vela em mar de mágoa

Batida por furiosos vendavais!
 - Eu fui na vida a irmã de um só irmão,
 E já não sou a irmã de ninguém mais!




Seus poemas carregados de intimismo refletem muito sobre sua curta vida. Florbela suicidou-se aos 36, no dia de seu aniversário, às vésperas da publicação de sua obra prima “Charneca em Flor”, que só foi publicada em janeiro de 1931. 

 Uma mulher de olhar triste, com um fim triste, de poemas tristes,  que nos envolve e nos encanta com suas palavras sempre regadas de um único desejo - amar. 


AMAR!


Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: aqui...além... 
Mais este e aquele, o outro e toda a gente....
Amar!Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
 Prender ou desprender? É mal? É bem?
 Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida, 
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar.

E se um dia hei de ser pó, cinza e nada
 Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...

Florbela Espanca - foto reprodução

Mágoa,  angústia, sofrimento, desencanto, solidão... As dores emocionais dão sabor a obra da poetisa portuguesa Florbela Espanca, expressando o seu desejo de amar; "Eu quero amar, amar perdidamente!/Amar só por amar: aqui...além..." O fato pode justificar sua vida  amorosa turbulenta, com divórcios e adultérios, um escândalo para sua época, mas que representa bem essa busca, ou como ela mesmo coloca em alguns de seus poemas -  mendigar amor.



Fonte:
ESPANCA, Florbela. A mensageira das violetas: antologia. Seleção e edição de Sergio Faraco. Porto Alegre: L&PM, 1999. (Pocket).