26 outubro 2016

PRINCESA DA POESIA ROMÂNTICA - LUÍSA AMÉLIA DE QUEIROZ BRANDÃO



Lendo sobre a história das mulheres nordestinas, deparei-me com uma poeta piauiense do século XIX, no qual senti a necessidade de falar um pouco, pela ousadia e representatividade - Luísa Amélia de Queiroz Brandão





Luísa Amélia de Queiroz Brandão , nasceu em 26 de dezembro 1838 ao norte da província em Piracuruca-Piaui faleceu no dia 12 de novembro de 1898 aos 59 anos em Parnaíba - Piaui. Teve acesso a uma instrução básica e aperfeiçoou seus conhecimentos por esforço próprio. É a pioneira na escrita poética do Piauí, considerada a PRINCESA DA POESIA ROMÂNTICA do Estado. 


Os obstáculos enfrentados , como acesso à leitura e à educação, resultou em grandes questionamentos, nos quais favoreceram sua busca por respostas através da produção literária de autoria feminina contrariando um período e região extremamente conservadora onde a maioria da população era analfabeta.

Mesmo com toda sua ousadia, mostrava-se receosa em alguns momentos diante das opressões de sua época, como mostra o poema intitulado: "Não sou poeta", onde abnega o titulo de poeta por ser um lugar social exclusivamente masculino. 

Não sou poeta

(fragmento)

Não sou poeta! que ambição tão louca
Nunca me veio perpassar a mente,
Só o que quero, o que exalar procuro,
São os affectosquamin’alma sente.

[...]

Não sou poeta, muito embora eu sinta,
Por altas noites myst’rioso encanto
Arrebentar-me a regiões ignotas,
Depois baixando murmurar um canto.


Em 1875, escreve seu primeiro livro de poesia intitulado: FLORES INCULTAS. O título da obra reflete a revolta da autora frente às imposições sociais no sertão nordestino do século XIX. Flores pela delicadeza imposta as mulheres, que deveria se fazer presente em cada gesto e palavra, incultas por terem acesso limitado a instrução , comparada a dos homens, isso quando tinham; pois estas eram restritas ao espaço privado. A elas não se destinava a esfera publica do mundo econômico, politico, social e cultural. Nas estrofes do poema abaixe percebe-se a subjetividade presente em sua obra.


O Homem Não Ama
(fragmento)

Jamais o seu peito mais duro que o aço,
Palpita a não ser a louca ambição. 
Supõe-se - orgulhoso - que é soberano,
Que todas as belas vassalas lhe são!
Mais falso que a brisa que as flores bafeja,
Se mil forem belas... a mil finge amar...
Assim um já disse, e assim fazem todos, 
Embora não queiram jamais confessar,
Cruéis, como Nero, são todos os homens!
Ateiam as chamas de ardente paixão,
Depois... observam, sorrindo, os estragos...
E dizem, cobardes! que têm coração!!


[De Flores Incultas, 1875]


Também fala de Deus como mostra os versos de encantador lirismos e profundo sentimento religioso:

(fragmento)

A Deus
Ser dos seres, oh, tu que podes tanto,
Que fizestes a terra e o firmamento
Com diversas belezas. Num momento
Aniquila – lás podes. Santo, Santo.

Tu que aos lábios dás risos, aos olhos pranto,
Que lês no coração, no pensamento,
Que as fúrias conténs, ao mar, ao vento,
E às flores dás vida, e ao sol encanto. 

Não consistas, meu Deus, que fero instinto
À virtude polua o véu tão casto,
E que seja o teu dom assim extinto. 

Ah, Senhor, tu és Pai, nunca padrasto
Bem sabes que sucumbo e que não minto.
Ah! Conforte tua Luz meu ser já gasto.

Luíza Amélia usou a poesia como meio de manifestar seu posicionamento crítico em relação à condição feminina da época.


A mulher

(fragmento)

A mulher que toma a pena
Para em lira a transformar,
É para os falsos sectários,
Um crime que os faz pasmar!
Transgride as leis da virtude;
A mulher deve ser rude,
Ignara por condição!
Não deve aspirar a glória!...
Nem um dia na história
Fulgurar com detinção!


 Apenas duas obras sua foram publicada quando viva -FLORES INCULTAS e GEORGINA. Porém é incontestável    o seu devido reconhecimento, pela ousadia de publicar  em uma época onde a mulher não tem reconhecimento social, expressando sua busca por liberdade. Realmente um orgulho de mulher!

Referências:



Telles, L. F. (2000). Mulheres, mulheres. Em del Priore, M. (Org.). Historia das mulheres no Brasil 9. ed. São Paulo: Contexto, 2007

MENDES, Algemira de Macêdo; ROCHA, Olívia Candeia Lima; ALBUQUERQUE, Marleide Lins de (Org.). Antologia de escritoras piauienses (Século XIX à Contemporaneidade) Teresina: Fundação Cultural do Piauí – FUNDAC / Fundação de Apoio Cultural do Piauí – FUNDAPI, 2009. 328p.